The Missing D – From Utopia to Denial

André Soares and Cátia Severino

On 25 April 1974, the Armed Forces Movement overthrew the Estado Novo dictatorship and initiated the PREC – the Ongoing Revolutionary Process (1974 – 1976). Portuguese society was reshaped by mass mobilisation, occupations, and a profound political transformation. At the centre of this revolutionary horizon stood the “three D’s”: Democratise, Develop, and Decolonise.

To democratise meant securing political freedoms and fundamental rights. To develop implied overcoming structural inequality and economic backwardness. Yet it was the third D — Decolonise — that posed the deepest challenge, for it required confronting five centuries of empire.

Between 1974 and 1975, Angola, Mozambique, Guinea-Bissau, Cape Verde, and São Tomé and Príncipe became independent. Formally, the Portuguese empire ended. But political independence did not produce historical reckoning. Decolonisation was treated primarily as a diplomatic and military process, not as a transformation of memory, institutions, and social hierarchies.

In 1975, around half a million people arrived in Portugal from the former colonies — the so-called retornados (the returned). Their arrival reshaped the country. Yet public narratives focused almost exclusively on metropolitan loss, silencing a deeper structural truth: modern Portugal, and Lisbon in particular, had long been built upon colonial exploitation and racialised labour.

In 1444, the first documented group of enslaved Africans arrived in Lagos, Algarve. This moment inaugurated a prolonged process of dehumanisation that embedded racial hierarchy into the formation of the Portuguese state. Papal bulls of the fifteenth century granted religious legitimacy to conquest and enslavement, providing juridical cover for imperial violence. The Empire was not only an economic or geopolitical project; it was also a racial one. The category of the “Other” as inferior accompanied the consolidation of a European identity that imagined itself universal and civilising.

Violence inflicted on Black bodies – physical, economic, and symbolic – structured the colonial order. Yet this genocidal project did not succeed in erasing resistance. African liberation movements rendered the colonial war unsustainable and affirmed the legitimacy of self-determination. It was their struggle that precipitated the regime’s crisis and created the conditions for the 25 April Revolution. 13 years, 2 months, and 3 weeks of colonial war. Angola, Guinea-Bissau, Mozambique. The resistance of São Tomé and Príncipe, Cape Verde, and East Timor.

Here lies the unfinished dimension of the third D.

The revolution opened the path to democracy, but it did not dismantle the colonial matrix that continued to shape memory and power. Decolonisation remains incomplete so long as collective memory, public space, curricula, and institutions fail to acknowledge that Portuguese modernity was co-produced through slavery, empire, and racialised labour.

Fifty years after the Carnation Revolution, the missing D calls not for territorial withdrawal, but for historical justice. Only by confronting the colonial past as constitutive — rather than peripheral — can democracy be understood as an ongoing project rather than a completed event.

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O D que Falta – Da Utopia à Negação

André Soares e Cátia Severino

No dia 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas derrubou a ditadura do Estado Novo e iniciou o PREC – Processo Revolucionário em Curso (1974-1976). A sociedade portuguesa foi então atravessada por mobilizações populares, ocupações e profundas transformações políticas. No centro desse horizonte revolucionário afirmaram-se os “três D’s”: Democratizar, Desenvolver e Descolonizar.

Democratizar significava instaurar liberdades políticas e direitos fundamentais. Desenvolver implicava superar desigualdades estruturais e o atraso económico herdado da ditadura. Mas o terceiro D — Descolonizar — colocava o desafio mais exigente: confrontar cinco séculos de império.

Entre 1974 e 1975, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe tornaram-se independentes. Formalmente, o império português chegava ao fim. Contudo, a descolonização política não significou um verdadeiro acerto de contas histórico. Foi tratada sobretudo como processo diplomático e militar, e não como transformação profunda das narrativas nacionais, das instituições e das hierarquias sociais.

Em 1975, cerca de meio milhão de pessoas chegaram das ex-colónias — os chamados “retornados”. A sua chegada reconfigurou o país. Todavia, o debate público concentrou-se quase exclusivamente na experiência metropolitana, silenciando um facto estrutural: o Estado moderno português e a própria capital foram construídos sobre a exploração colonial e o trabalho racializado.

Em 1444, em Lagos, desembarcava o primeiro grupo documentado de africanos escravizados em território português. Esse momento inaugurou um longo processo de desumanização que inscreveu a hierarquia racial na formação do país. A expansão ultramarina, legitimada por bulas papais que autorizavam a conquista e a escravização, conferiu enquadramento religioso e jurídico à violência imperial. O império não foi apenas um projecto económico; foi também um projecto racial. A construção do “outro” como sujeito inferior acompanhou a afirmação de uma identidade europeia que se pensava universal e civilizadora.

A violência exercida sobre os corpos negros — física, económica e simbólica — estruturou a ordem colonial. Ainda assim, essa violência genocida não foi bem-sucedida. Não eliminou a resistência nem impediu a organização política dos povos colonizados. Foram precisamente os movimentos independentistas africanos que tornaram a guerra colonial insustentável e criaram as condições para a queda do regime. 13 anos, 2 meses e 3 semanas de guerra colonial. Angola, Guiné Bissau, Moçambique. Resistência de São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor Leste.

É aqui que o terceiro D permanece inacabado.

Cinco décadas depois, descolonizar não significa apenas reconhecer independências políticas, mas transformar a memória pública e coletiva, os currículos escolares, o espaço urbano e as instituições. Significa admitir que a modernidade portuguesa foi co-produzida pela escravização e pelo trabalho forçado. A democracia só se completa quando reconhece essa história como parte constitutiva de si mesma.

O 25 de Abril foi uma rutura decisiva. Mas o D que falta lembra-nos que a descolonização é um processo ainda em curso.

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